Mulheres em Carne e Osso: uma reflexão crítica sobre o sofrimento das trabalhadoras em frigoríficos no Brasil

Pedro Paulo Scremin Martins

Resumo


Este artigo tem como objetivo refletir criticamente sobre o sofrimento das mulheres trabalhadoras em frigoríficos no Brasil, através do documentário Carne e Osso e com base em teorias sobre sofrimento social e feminismo. Foi possível identificar que o sofrimento das mulheres é decorrente da divisão sexual do trabalho e sua inter-relação com os métodos gerenciais de organização e intensificação do trabalho para a exploração da sua capacidade laborativa no espaço público além dos limites humanos. Paradoxalmente, quando ficam doentes e incapacitadas para o trabalho em frigoríficos, elas sofrem também pela consequente deficiência no desempenho do trabalho doméstico. Embora muitos fatores de opressão e exploração no trabalho sejam comuns aos trabalhadores de ambos os gêneros, como a mutilação do corpo, o adoecimento e a culpabilização da vítima, as mulheres sofrem mais devido à dupla jornada e ao assédio moral que acompanha a extensão da dominação masculina no espaço público. Esses fatos permitem especificar o sofrimento social do gênero feminino. Diante da interdependência constatada entre a estrutura patriarcal e a econômica, conclui-se em favor de uma práxis feminista capaz de articular antipatriarcalismo e anticapitalismo, acreditando que, somente assim, será possível eliminar o sofrimento causado por injustiças de gênero.


Palavras-chave


Sofrimento Social, Patriarcalismo, Divisão Sexual do Trabalho, Capitalismo, Feminismo.

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